Jovens Sem Chefes | Ressignificar O Que Me Incomoda – Margarida Pereira

Capa - Jovens Sem Chefes - Ressignificar o que me Incomoda - Margarida Pereira

Acredito que uma das formas de descobrirmos o nosso propósito de vida é através de reflexões sobre o que nos incomoda no mundo. Nós somos os únicos especialistas em nós próprios e se nos debruçarmos sobre o tema que nos inquieta, tornamo-nos especialistas nele. Assim, a nossa dor pode desencadear o que temos de mais poderoso para trazer ao mundo. Eu não precisei de pensar muito sobre o que me incomodava, estava consciente daquilo que me revoltava no mundo. Contudo, tive de reflectir sobre como lhe dar um novo significado. Esta capacidade de ressignificação foi muito importante para encarar o que me magoa como uma oportunidade de descobrir a minha missão.

Alguns temas incomodam-me profundamente, no entanto trazem sentido à minha vida.

Um deles diz respeito à alimentação, pois quando me tornei vegetariana, constrangia-me o facto de as pessoas acharem que ia ter carências nutricionais e considerarem quase ridícula a preocupação com o sofrimento dos “animaizinhos”. Incomoda-me a sociedade com ideais especistas, que nos ensina que determinados animais são para cuidar e outros são para explorar. Uma vez que não consigo estar indiferente a estas questões, assumi que tenho a responsabilidade de trabalhar no desenvolvimento de novos ideais de consciencialização e compaixão. Para tal, a educação é fundamental.

Assim, surge o outro tema que me inquieta – o facto de ver a escola cristalizada no tempo. Quatro paredes, uma turma, testes, blocos de noventa minutos, entre outros aspectos compõe um sistema criado no princípio do século XIX para adaptar as pessoas à Era Industrial. Se pensarmos na etimologia da palavra “educar”, esta provem do latim “educare” – uma aglomeração do prefixo “ex” (que significa “exterior”) à palavra “ducere” (que significa “direccionar”). Por conseguinte, educar é direccionar o potencial de cada pessoa para o exterior.

Educar significa extrair o potencial.

Este é um tema que me incomoda porque eu própria ainda despendo parte dos meus dias a assistir a aulas do sistema educativo tradicional. Aulas que, na maioria das vezes, servem apenas para me consolidarem a ideia de que tenho de contribuir para a mudança deste sistema. Não é normal haver tantos jovens desmotivados e sem um propósito de vida – provavelmente adormeceram a noção de que são únicos e que, por isso, têm um contributo único para conceder ao mundo. Provavelmente passaram as suas vidas a ouvir respostas a perguntas que nunca fizeram.

E só se aprende procurando e só procuramos quando precisamos.

Num dos eventos mais inspiradores da minha vida – um convívio com o professor José Pacheco – a primeira pergunta que o professor colocou à plateia foi “O que querem saber?”, mostrando que um professor não tem de planificar nada, apenas ajudar o outro a planificar-se.

17238741_1923330274552535_830787136_n

De facto, a solução para o que me incomoda é o que eu venho oferecer ao mundo. A minha missão é contribuir para as novas construções sociais de aprendizagem, nas quais cada pessoa é ajudada a reconhecer e a extrair o seu potencial, criando comunidades e redes formadas no domínio da ética e da compaixão.

Hoje estou grata àquilo que me incomoda, pelo sentido que traz à minha vida.

Partilhem o que vos incomoda no mundo. 

Margarida Pereira

1 thought on “Jovens Sem Chefes | Ressignificar O Que Me Incomoda – Margarida Pereira

  • Incrível só hoje ter conseguido ler-te e identificar-me tanto contigo.
    Fui professora “paraquedista” sempre a saltar de escola, Portugal Continental, e em tempos de guerra em Angola, por 2 vezes, e na Guiné, depois nos Açores, em Macau, e por fim novamente em Portugal Continental.
    E foi nos anos 90 ao regressar e ao continuar a constanctar o mal estar de alunos, professores e pais, que decidi dedicar-me à área do desenvolvimento pessoal e social.
    Sinto ser fundamental criar espaços de auto-conhecimento e de partilha de princípios éticos orientadores do processo, sempre dinâmico, de formação nosso sistema de valores pessoais e orientadores da nossa prática diária. Esta falha na família e na escola leva a que cada pessoa não sinta a sua autoridade pessoal respeitada, nos seus grupos de pertença; e, muitas das vezes, além de não se encontrar a si mesma e ao seu imenso potencial, e poderá levar a que entre em processos de auto-destruição.
    Daí ser fundamental contribuirmos para forma uma Escola de Vida, e incluisiva, tal como a que é proposta por José Pacheco.
    Bem-hajas Margarida, mais uma vez!

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *